sábado, 27 de março de 2010

Sentada nas escadarias cinzentas da velha escola, percebi o sol vespertino intrometer-se timidamente pelas janelas de vidro entreabertas.
Se não me engano apenas senti, porque na verdade meus olhos olhavam fixamente para o nada, vendo qualquer coisa que outro alguém não veria. Enquanto minha mente vagava por lugares distantes, deixei as horas passarem. Não havia ninguém me esperando para o café da tarde.Isso parece não fazer o mínimo sentido, mas, se eu fechasse os olhos, interromperia a viagem de minha mente, onde meu corpo não podia mais estar.
E o vi outra vez. O sorriso largo e despreocupado, os olhos castanhos de uma vivacidade quase que infantil. Não, ninguém tão especial - só estou fazendo drama. E eu pensei que havia me livrado... O riso que mais soava como uma canção, os cabelos avermelhados, a voz que era minha música preferida. Ele. Que tantas e tantas vezes me fez chorar sem saber que o que um dia havia escrito me tocava a alma.
Não sei o que fiz com meus heróis. Nem sei mais o que fiz com minha coleção de posters. Isso talvez seja justo, mas...
Sem desviar os olhos do nada, eu os vi. Gargalhadas, brincadeiras idiotas, deveres na casa do colega. Um ar estranho invadiu os meus pulmões. Tentei sentir o que sentia naqueles dias. Mas agora o ar era morto, e os estudantes dos velhos dias haviam seguido cada um o seu caminho, se é o que os desprovidos de qualquer coisa não morreram ou foram presos antes disso. Nomes, listas de chamada, horário de aulas, tudo, tudo... Eu vi tudo enquanto nada via, sentada sozinha numa escadaria. Quando meus olhos deviam permanecer imóveis, lágrimas o inundaram. Bastou ver uma mulher ajeitando cuidadosamente o casaco de uma garotinha, tão pequena, com uma mochila nas costas e um sorriso no rosto. Isso sim, não me era justo. Ter deixado isso para trás. Era como uma alucinação, e, para falar a verdade, eu bem que poderia estar sentindo saudades de algo de que nunca tive... Concentrei-me no pensamento de que eu não estava ali, sozinha, toda de preto, com os cotovelos apoiados nos joelhos e o rosto pousado na mão fechada. Logo o sinal bateria, Andressa me chamaria para a última aula e a vida ia continuar. Era um devaneio, algo tinha que me despertar. De fato. Meu celular vibrou, no bolso do meu sobretudo preto. 10:06. Nem sei quando coloquei meu celular pra despertar...
Olhei ao redor. Era o velho pátio da escola. Vazio. Sem vida. Abandonado. Se toca, garota - é tudo verdade mesmo. Tudo verdade. Levantei-me, um pouco preguiçosa demais, na minha arrogante opinião. Passei a mão pelos cabelos e tomei meu rumo, empurrando a porta, que soltou um rangido agônico. Antes de dar o último adeus, olhei outra vez para o pátio desgastado. Cenário de conversas com meus colegas, sobre heróis e divas que deixei para trás. Que deixei para trás, mas que se refletem nas lágrimas de meus olhos quando vejo o pôr do sol.


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